terça-feira, 1 de dezembro de 2015

A primeira história do nosso mundo



Por Júlia Martins
Li a obra mais recente de Alberto Mussa, intitulada A Primeira História do Mundo. O livro foi finalista do Prêmio Oceanos, que até o ano passado era chamado Prêmio Portugal Telecom. Gosto de dar uma olhada nessa lista, já que grandes autores da língua portuguesa estão sempre entre a lista de finalistas, como Valter Hugo Mãe, Gonçalo Tavares entre outros.

Mussa fez jus à indicação para ficar ao lado da obra desses grandes escritores. A Primeira História do Mundo fala sobre o primeiro assassinato acontecido no Brasil, mais especificamente na vila que deu origem ao Rio de Janeiro. 

O autor se baseou em alguns documentos da época para recontar essa história, mas o que dá o charme ao livro não são os fatos históricos e sim as lendas e mitos indígenas presentes ao longo do livro para poder construir seu argumento do possível assassino. Além disso, também há outras histórias e lendas construídas no desenrolar da conquista do Brasil.

O que refleti durante a leitura foi como sabemos tão pouco da cultura indígena brasileira, um dos pilares do desenvolvimento de nossa nação. Infelizmente, hoje sei mais de outros povos originários das Américas como os incas do que os índios brasileiros, pois outros países como Chile e Peru realizam um trabalho muito bonito no desenvolvimento do turismo cultural de seus povos. 

Vejo uma falha grave na educação brasileira no que concerne à história dos povos que ocupavam o que hoje é o território brasileiro, seus costumes, sua cultura, sua identidade. Esse livro, para mim, veio como uma forma de ocupar esse vazio de nossa história. E, para completar, não é um livro chato ou maçante, como muitos reclamam da obra de José de Alencar. Muito bom!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O amargor do tomate


Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, é uma prosa poética de cunho autobiográfico. A narração é feita por um menino que mostra como ele e os irmãos encaram a morte da mãe. Eram seis irmãos, dois já morreram no momento em que o romance é relatado. Cada um dos sobreviventes encontrou uma maneira de encarar a vida sem a mãe: o narrador sobrevive os dias com seu silêncio e seu amor interno, vivido sem transparecer. Enquanto a irmã mais velha se dedica à costura em ponto-cruz; um irmão come vidro, isso o alivia. Outro não fala, mia, e é inseparável de gato, mudo. A irmã mais nova, que veio ao mundo enquanto a mãe partia, encontrava paz no globo, objeto no qual a cada dia ela escolhia um lugar diferente para acordar, em sua imaginação.

O pai se entregou ao álcool e recomeçou a vida ao lado da madrasta. Enquanto a mãe era doce, a madrasta era amarga. Sua fúria era descontada no tomate, servido em cada refeição diária, carregado de amargor. O legume sempre foi a estrela do prato. Como uma metáfora, todos comiam o tomate indigesto, como maneira de aceitar a vida imposta pelo destino.

Pouco a pouco, cada um dos irmãos deixa a casa, a seu tempo. Esse fato é apresentado ao longo do romance como contagem regressiva, enfatizando cada despedida. É com pesar que o narrador vê a casa ficar cada vez mais vazia, enquanto as fatias do tomate ficam mais grossas. Isso perpetua até o momento de sua própria partida. O menino passa a não acreditar em Deus. Somente os livros e sua fantasia o mantém fora da realidade amarga.

Um livro curto (72 páginas), mas grande em aspectos literários e sentimentos. Nos vemos imersos na vida do menino e padecendo de suas angústias. No final, não queremos, nem estamos preparados para que o livro acabe. Ficamos com o gosto amargo do tomate na boca e o mal-estar indigesto provocado por ele. Nota 9. A edição da Cosac tem letras vermelhas enfatizando essa presença, amarga, do tomate.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Histórias singulares de pessoas comuns


O escolhido foi você, de Miranda July, reúne entrevistas da autora com pessoas comuns e reais, e por isso complexas e fascinantes, escolhidas por meio do periódico semanal gratuito de classificados PennySaver. Os que ainda resistiam à internet, mesmo em 2009, recorriam a esse meio de comunicação para anunciar objetos diversos que gostariam de se desfazer. Entre os objetos estavam um secador de cabelo muito velho, uma jaqueta de couro surrada, peças de roupa indiana, girinos e Ursinhos Carinhosos. Por trás de cada objeto estavam pessoas com histórias de vida diversas, surpreendentes e até chocantes.

A ideia por essa busca sobre como viviam essas pessoas surgiu quando Miranda escrevia o roteiro de seu filme O Futuro (2011), o qual ela também era protagonista. A autora buscava inspiração para o contato de um de seus personagens com pessoas aleatórias, batendo de porta em porta, num momento em que ele larga tudo e vai vender mudas de árvores num gesto de devoção e fé ao planeta. 

Miranda, após diversas entrevistas, começou a não ver sentido no trabalho com o PennySaver, o qual oferecia US$50 por cada entrevista. No entanto, sua última experiência foi transformadora, pessoal e profissionalmente para ela. Joe, um senhor de 81 anos, sendo casado há 62, vendia cartões que ele mesmo fazia com colagens e poemas sujos. Sua trajetória, sua paixão, sua sabedoria inspirou de tal forma, que o próprio personagem da vida real foi convidado para compor o elenco do longa-metragem.

A autora não deixa de lado sua sinceridade durante a escrita, para isso taxa alguns de seus entrevistados como feios, mal vestidos, além de relatar que jogou a salada de frutas feita pela vendedora de gatos para ela e sua equipe fora. Também, algumas memórias da vida de Miranda são relatadas no decorrer das entrevistas, como o passado em que ela tinha uma namorada, roubava e temia seu próprio futuro incerto. As entrevistas foram bem superficiais, creio que por ser muito material gravado e pouquíssimo aproveitado. Uma excelente ideia, mas não tão bem executada. Nota 8.

Assista abaixo o trailer oficial de The Future (2011):


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Um toque de mestre



Por Júlia Martins
Sangue no Olho foi uma de minhas leituras mais recentes e compartilho, nessa postagem, um pouco das percepções dessa experiência literária. O início do livro de Lina Meruane é genial. Com uma visão fria e calculista de sua condição, a personagem principal homônima à autora (Lina) narra o princípio do fim de sua visão, um derramamento de sangue que vai aos poucos ocupando toda sua córnea, a impedindo de enxergar o mundo. Na verdade não é apenas o nome que a personagem tem em comum com a autora, elas partilham também a nacionalidade, área de trabalho e local de moradia, confundindo um pouco essa ficção com autoficção.

Aos poucos a narrativa do romance acaba esfriando, mas achei muito interessante a transformação de Lina, que como personagem central dessa trama, acaba modificando vagarosamente seu comportamento e temperamento à medida que a doença evolui. Parece que a cada instante, ela se vê mais próxima da cegueira total, perdendo um pouco da frieza e passando por situações de desequilíbrio e tormenta. 

O relacionamento estabelecido por ela com seu companheiro e seus pais também é muito interessante. Sem abordar nada diretamente, mostra certa submissão de seu namorado Ignácio e o distanciamento que ela construiu com a família. Portanto, não é um romance que fala apenas de uma doença, mas dos relacionamentos e como a doença os influencia.

Sem querer desmerecer o romance dessa super escritora, o que achei o grande charme desse livro foi a edição da Cosac, mais uma vez! O livro, ao decorrer das páginas, vai se tornando mais escuro, diminuindo o contraste entre letra e fundo, o que dificulta a leitura. Isso nos aproxima um pouco da condição da personagem da própria história, como se estivéssemos também experimentando uma diminuição da capacidade de visão. Toque de mestre.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Animais de estimação mudam vidas




O'Hurley, Betty e Scochi (branco) (Foto: animalfair.com)
Tudo bem não alcançar a cama no primeiro salto, do ator americano John O'Hurley, é um livro sobre as lições aprendidas pelo autor com seus cães de estimação. As crônicas vêm comprovar a premissa sobre o melhor amigo do homem, o qual está disposto a ouvir, ser companheiro e tentar alegrar em qualquer circunstância. Desde criança, O'Hurley sempre teve uma ligação muito forte com os cães e, por isso, pôde reunir seu aprendizado em um livro.

Manter a alegria e o sorriso (os cães sorriem balançando o rabo), saber a hora de seguir em frente, não importar com o seu tamanho frente às adversidades são algumas dessas lições, transpostas do mundo canino para a humanidade, as quais, segundo o autor, o ajudaram a se tornar uma pessoa melhor.


Foi divertido acompanhar a relação estreita entre homem e cão, capaz de surpreender. Os personagens reais ao longo das histórias – como Taffy, Betty, Scoshi –, são exemplos do sucesso da relação transformadora com animais de estimação. Quem tem algum (eu tenho uma vira-lata, Madonna, e dois porquinhos-da-índia, Inca e Asteca) sabe o quanto são especiais e como podemos aprender com eles, mais até do que com a humanidade.


Apesar de interessante, achei o livro superficial e não muito empolgante. É fácil e rápido de ler, mas não marca nossa vida. Nota 7.