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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Asterios Polyp: mais um da nona arte



Por Júlia Martins


Para mim, Asterios Polyp não é um livro de quadrinhos, é uma obra de arte. Não sou a maior conhecedora de quadrinhos, embora nunca tivesse lido, ou visto, algo tão surpreendente e elaborado no que diz respeito ao desenho/traço.

Paleta de cores diferenciada (Fonte: NY Times)
David Mazzucchelli, autor dessa linda obra, trabalha tantos traços, formatos, cores que a obra transborda em beleza e inovação. A história também é muito bem contada: o protagonista, Asterios Polyp, um arquiteto de sucesso, relembra sua vida em meio a pesadelos com um irmão gêmeo natimorto. Um incêndio em seu apartamento o faz largar tudo.

A verdade é que eu nem tenho conhecimento para descrever a arte que nos é apresentada, mas posso garantir que foi uma experiência muito diferenciada esteticamente, sem deixar de lado a delicadeza das relações humanas que são tratadas no livro. É maravilhoso.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O amargor do tomate


Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, é uma prosa poética de cunho autobiográfico. A narração é feita por um menino que mostra como ele e os irmãos encaram a morte da mãe. Eram seis irmãos, dois já morreram no momento em que o romance é relatado. Cada um dos sobreviventes encontrou uma maneira de encarar a vida sem a mãe: o narrador sobrevive os dias com seu silêncio e seu amor interno, vivido sem transparecer. Enquanto a irmã mais velha se dedica à costura em ponto-cruz; um irmão come vidro, isso o alivia. Outro não fala, mia, e é inseparável de gato, mudo. A irmã mais nova, que veio ao mundo enquanto a mãe partia, encontrava paz no globo, objeto no qual a cada dia ela escolhia um lugar diferente para acordar, em sua imaginação.

O pai se entregou ao álcool e recomeçou a vida ao lado da madrasta. Enquanto a mãe era doce, a madrasta era amarga. Sua fúria era descontada no tomate, servido em cada refeição diária, carregado de amargor. O legume sempre foi a estrela do prato. Como uma metáfora, todos comiam o tomate indigesto, como maneira de aceitar a vida imposta pelo destino.

Pouco a pouco, cada um dos irmãos deixa a casa, a seu tempo. Esse fato é apresentado ao longo do romance como contagem regressiva, enfatizando cada despedida. É com pesar que o narrador vê a casa ficar cada vez mais vazia, enquanto as fatias do tomate ficam mais grossas. Isso perpetua até o momento de sua própria partida. O menino passa a não acreditar em Deus. Somente os livros e sua fantasia o mantém fora da realidade amarga.

Um livro curto (72 páginas), mas grande em aspectos literários e sentimentos. Nos vemos imersos na vida do menino e padecendo de suas angústias. No final, não queremos, nem estamos preparados para que o livro acabe. Ficamos com o gosto amargo do tomate na boca e o mal-estar indigesto provocado por ele. Nota 9. A edição da Cosac tem letras vermelhas enfatizando essa presença, amarga, do tomate.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Velhos, novos, putas tristes e o amor



Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, trata sobre a vida e sobre o amor, este podendo ser descoberto, e elevado a última potência, mesmo após os 90 anos. O protagonista é um jornalista e crítico das artes colombiano. Como presente de aniversário, ele decide se dar uma noite de amor louco com uma adolescente virgem de 14 anos. Tudo é preparado pela cafetina e velha conhecida Rosa Cabarcas, mas as coisas não saem exatamente como planejado. Ao invés disso, nasce uma paixão e, junto a ela, a descoberta do sentimento amoroso, negligenciado pelo protagonista por toda a sua existência (quase um século).

O livro contém a escrita fluida e leve do Gabo, com a intensidade capaz de nos tirar da zona de conforto. Pensamos na vida e no que ela é capaz de fazer conosco – ou o que somos capazes de fazer com ela. Deparamos-nos com uma reflexão sobre escolhas, amadurecimento e envelhecimento, deixando claro que nunca é tarde para descobrirmos os prazeres que acompanham a felicidade. Também nos deparamos com o poder do amor, o qual nenhum de nós está imune dos seus efeitos colaterais, incluindo atitudes impensadas e bobas.

A lucidez do protagonista é invejável. Sua capacidade intelectual, mesmo que desvalorizada, o mantém ativo mesmo após tanto tempo de trabalho. Sua vida sempre foi conturbada com relações sexuais com prostitutas sem amor, motivo que dá nome à obra. Descobrimos que antes da morte para tudo tem jeito ou possibilidade de mudança.

Mesmo com um tema delicado como a prostituição de menores o livro não pende para a problematização negativa. Os sublimes sentimentos põem essa questão em segundo plano. Nota 10.

terça-feira, 7 de julho de 2015

A obra-prima de Bolaño

Por Júlia Martins


2666 é um livro para poucos. Não conheço muita gente que se aventuraria em uma obra de 850 páginas (mas para mim é só o aquecimento, pois Graça infinita, com suas mais de 1.000 páginas, está na fila). E apesar dos anos de leitura, esse foi o calhamaço mais extenso que me lembro de ter lido.

Mas vamos tratar de qualidade e não de quantidade. Essa obra é dividida em cinco partes, todas elas conversam entre si, e a última dá o desfecho da história. Desfecho é uma palavra um pouco inadequada na verdade, pois o que mais se sente nesse livro são os elementos que ficam abertos.

A primeira parte narra a história de alguns críticos literários que estão em busca de um escritor misterioso, chamado Benno von Archimboldi, o qual estudam e admiram profundamente. São três homens e uma mulher e, além de sua ligação literária, há um envolvimento sentimental entre eles, com um desfecho inesperado. Os estudiosos partem em busca de do escritor no México, na cidade de Santa Teresa, onde conhecem o protagonista da segunda parte.

Na parte seguinte, conhecemos a história de um professor de literatura, chamado Amalfitano, que mora em Santa Teresa (cidade onde são protagonizados muitos acontecimentos da narrativa e que se torna, ela mesma, uma personagem) com sua filha única. Essa parte é a mais maluca de todas. Além de narrar um pouco do passado do professor, conta seus devaneios sobre um livro de matemática que acaba dependurado no varal em um clima bem onírico e misterioso.

A terceira parte é sobre um jornalista americano que vai a Santa Teresa para escrever uma reportagem sobre uma luta de boxe na cidade e acaba se vendo envolvido com pessoas e histórias de assassinato que ocorrem no local.

A parte seguinte é o soco no estômago do livro. Ela narra os assassinatos que ocorrem em Santa Teresa (ficcionalização da Ciudad de Juarez, onde existe realmente uma terrível história de feminicídio que persiste há mais de vinte anos aos olhos das autoridades do país). Principalmente para mim, que sou mulher, foi uma leitura penosa, dolorida, que tive que dividir em doses homeopáticas. Mesmo assim, acho que é o coração do livro, pois essa experiência literária nos leva a desenvolver sentimentos elevados ao extremo, sensações que nunca experimentei na vida cotidiana e também traz algumas histórias permeadas entre os assassinatos que nos auxiliam a ter algumas ideias sobre a motivação e o cerne dessa história de terror.

Roberto Bolaño (Foto: estrelaselvagem.wordpress.com)
Quando li o livro, não sabia que essas histórias realmente haviam acontecido e acho que vale a pena conhecer um pouco mais sobre Ciudad Juarez antes de ler 2666. Fiquei com a sensação que o Bolaño ia solucionar o caso, mas sabendo que nem na vida real esse triste panorama teve um desfecho, entendo que o objetivo dele era outro. 

A última parte do livro é a história de Archimboldi, o escritor venerado pelos críticos da primeira parte. Aqui, Bolaño mostra toda sua maestria em criar histórias dentro de histórias, e mudar completamente o tipo de narrativa que passa do realismo bruto dos assassinatos para um ambiente fantástico da infância de Archimboldi com sua mãe caolha e seu pai perneta. Após a infância cheia de elementos mágicos que dá alento à leitura, a narrativa traça o caminho de Benno durante a segunda guerra mundial até se casar com Ingeborg e se tornar escritor. 

A parte final costura as demais histórias, mas não sem deixar muitas perguntas por responder. Como podemos ler na orelha do livro, a sensação que o livro dá é que cada frase traz uma informação importante para o desfecho da história e nem tudo que se diz parece conectar com alguma coisa no final. Outro dia, um colega me disse que achava Allan Moore um grande escritor porque ele não subestima a inteligência do leitor e deixa um pouco das lacunas para serem desvendadas por ele. Acho que é exatamente isso que Bolaño busca em sua obra.

Acredito também que a sensação de uma história inacabada é o objetivo do autor, pois na vida real essa história nunca acabou; então a inquietude, o horror e o medo persistem. Terminei o livro pensando que tinha desperdiçado um mês de leituras com ele, porém, depois de refletir bastante sobre o tema, 2666 é uma obra inteligente e desafiadora, que merece a atenção de quem quer vivenciar algo inusitado, que nos tira do lugar comum.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Best-seller nipônico



Um grito de amor do centro do mundo, de Kyoichi Katayama, é um livro com mais 3,5 milhões de cópias vendidas no Japão. A temática, permeada pela morte, é sobre o amor do jovem Sakutarô e da bela Aki. A obra tem a ordem cronológica entremeada por pensamentos e lembranças, com a narração do garoto. Aki, no começo da história, já está morta, vítima de leucemia.

A relação do casal passa pela inocência infantil, o primeiro beijo e os desejos sexuais. Tudo é construído com a intimidade que nasce da união dos dois. Mas essa história tem curta duração, e os passeios, risadas e beijos são substituídos pela dura rotina hospitalar.

Esse é um romance emocionante altamente recomendado. Mas um ponto importante para a leitura é não colocar expectativas. Ele não muda a vida, nem oferece nada além do básico a que se propõe, mas isto é feito com maestria. Nota 8.