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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Asterios Polyp: mais um da nona arte



Por Júlia Martins


Para mim, Asterios Polyp não é um livro de quadrinhos, é uma obra de arte. Não sou a maior conhecedora de quadrinhos, embora nunca tivesse lido, ou visto, algo tão surpreendente e elaborado no que diz respeito ao desenho/traço.

Paleta de cores diferenciada (Fonte: NY Times)
David Mazzucchelli, autor dessa linda obra, trabalha tantos traços, formatos, cores que a obra transborda em beleza e inovação. A história também é muito bem contada: o protagonista, Asterios Polyp, um arquiteto de sucesso, relembra sua vida em meio a pesadelos com um irmão gêmeo natimorto. Um incêndio em seu apartamento o faz largar tudo.

A verdade é que eu nem tenho conhecimento para descrever a arte que nos é apresentada, mas posso garantir que foi uma experiência muito diferenciada esteticamente, sem deixar de lado a delicadeza das relações humanas que são tratadas no livro. É maravilhoso.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Nota para dois quadrinhos

Por Júlia Martins


Li recentemente dois livros em quadrinhos da Editora Nemo, que está lançando muita coisa bacana, vamos lá:

Bear 2
A Bianca Pinheiro já havia me encantado com Bear. Trabalhando com a ingenuidade de uma criança e falta de conhecimento de um urso sobre os seres humanos, ela criou dois personagens super carismáticos e entrosados. Nessa segunda parte ela continua roubando risadas nossas com as falas espirituosas e inocentes de Raven e a rabugice de Dimas, potencializadas nesse episódio. São ótimas também as referências que ela faz a vários personagens consagrados da cultura geral. 

PS.: Acho que a Dona Pivara é minha personagem preferida de todos os tempos.

Pílulas Azuis
Pílulas Azuis é uma história autobiográfica do autor Frederik Peeters, sobre seu relacionamento com uma mulher portadora do vírus HIV. Além de ser uma declaração de amor muito bonita, Frederik dá um tapa na cara da sociedade preconceituosa e mostra como é possível viver com uma pessoa portadora do vírus, sem se contaminar e construir uma família. 

Sem ser um clichê autopiedoso, esse livro fala de duas pessoas que se conheceram e se apaixonaram. É abordado como a doença faz parte do dia a dia dos personagens pelos perigos de contaminação e pelos preconceitos dos outros. Muito bom.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um retrato da Segunda Guerra em quadrinhos



MAUS apresenta a história verídica do pai judeu do quadrinista Art Spiegelman, por meio de suas lembranças do período vivido em Auschwitz. O diferencial do livro fica por conta da metáfora escolhida para representação dos personagens. Os judeus são ratos, os alemães nazistas são gatos, os poloneses são porcos e os americanos são cães.

Trecho do livro
É possível compreender, acompanhando os relatos do velho judeu, as transformações ocorridas na vida das pessoas na época da Guerra, o grande impacto das decisões de Hitler e, principalmente, as precárias condições de subsistência impostas aos judeus. Até a extrema avareza do contador da história tem sua base nas tristes experiências vividas. De repente todas as riquezas e posses foram tomadas, eles passar a ser tidos como lixo e têm que se esconder em bunkers (câmara improvisada e isolada, onde os judeus ficavam dias sem poder sair, sem ter o que comer ou beber), até sua descoberta pelos soldados, o trabalho forçado, a fome, a humilhação e a morte. Primeiro crianças e idosos são sacrificados, depois tantos colegas de trabalho.

O livro consegue mostrar a história pesada e sangrenta de uma forma clara e simples. Temos uma visão do confronto segundo um judeu. Ficamos revoltados, incomodados e incrédulos. 

A história é contada nas visitas que Art faz a seu pai, já muito debilitado. Após o fim da Guerra, a mãe do quadrinista, devido às perturbações vividas, comete suicídio, deixando o marido sozinho e amargurado. Enquanto a relação entre pai e filho se estreita um pouco, o período de vida do pai se encurta, mas não finda até acabarem os seus relatos. Uma excelente dica para fãs de quadrinhos e para os que gostam de compreender detalhes da história mundial. Nota 9.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Delírios cotidianos de uma vida marginal





A perfeita combinação de quadrinhos com o trabalho do velho safado. O quadrinista alemão Matthias Schultheiss teve inspiração em sete contos, com marcas autobiográficas, de Charles Bukowski: Dois bêbados; Kid Foguete no matadouro; Os assassinos; A puta de 135 quilos; Mamãe bunduda; Henry Beckett; N. York, 95 cents ao dia; e Um trabalho em New Orleans. O resultado foi uma obra fluida, de leitura rápida, com o humor cru típico do escritor.

Trecho de Kid Foguete no matadouro
Sexo, miséria, bebedeiras, prostituição, drogas e aversão ao trabalho são os temas tratados nessas histórias. Para quem não conhece nada sobre o escritor, essa é uma ótima oportunidade de iniciação ao seu trabalho. Será possível ter um panorama geral da escrita. Por outro lado, para quem já o conhece, é um livro enriquecedor, bem selecionado e bem feito. Os traços são “jogados”, sem apelar para o detalhe e o capricho milimétrico, mas acredito que isso não é um problema, já que com a temática abordada, esse fato até cai bem.

Há o contato com as pessoas marginais, assim como o autor, das grandes cidades, tais como prostitutas e vagabundos. Pessoas sem muita expectativa na vida, querem só beber e se drogar. É importante ler algo sobre essa perspectiva. Ver o ponto de vista do diferente, daqueles que estão do outro lado. Como são suas vidas e pensamentos. O que fazem e o que esperam do mundo. É uma experiência antropológica. Nota 9.

Sobre Charles Bukowski
A editora L&PM expressou bem o estilo literário do escritor. Sua literatura é de caráter extremamente autobiográfico, e nela abundam temas e personagens marginais, como prostitutas, sexo, alcoolismo, ressacas, corridas de cavalos, pessoas miseráveis e experiências escatológicas. De estilo extremamente livre e imediatista, na obra de Bukowski não transparecem demasiadas preocupações estruturais. Dotado de um senso de humor ferino, auto-irônico e cáustico, ele foi comparado a Henry Miller, Louis-Ferdinand Céline e Ernest Hemingway.