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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sem a letra "O"

A seguir, replicarei o texto Reminiscência do Ziraldo, extraído do livro "Crônicas Mineiras", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 109. Uma ótima reflexão sobre a infância, a saudade e as coisas simples da vida, tendo Minas como pano de fundo.

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Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente. Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande. A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair.

E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil.

A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — pra lá e pra cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada.

Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz. Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci.

Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande.

E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, pra se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? sem quintal? pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas.

Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei.

E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m... Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: Quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa (?) — sem usar uma vez sequer a letra O? Leiam mais uma vez. Atentamente. Se tiver um — além deste aí em cima — eu como!

Sobre Ziraldo Alves Pinto
Ziraldo (Foto: Blog historiando)
Nasceu em Caratinga (MG), em 1932. É um homem de múltiplas atividades: advogado, jornalista, desenhista de humor, escritor infantil, autor teatral e de cinema, empresário, confirmando o que disse em uma entrevista há muito tempo: "Eu quero é abraçar o mundo com as pernas". Um dos fundadores do jornal "O Pasquim", que fez grande sucesso nos anos da repressão, lançou a revista "BUNDAS", em 1999, que só durou alguns meses. Em 19-02-2002, sob sua liderança, "O Pasquim" voltou às bancas, numa tentativa de fazer renascer o velho sucesso. Criador de Flicts, Jeremias, o Bom, O Menino Maluquinho, O Mineirinho Come-Quieto e tantos outros mais, que fazem parte de nosso cotidiano, aqui o autor é apresentado de forma intimista e emocionada, contando, sempre com muito humor, sua saída de Minas.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O que seria um haicai?


Haicai é um pequeno poema de origem japonesa formado por três linhas: cinco sílabas POÉTICAS na primeira, sete na segunda e outras cinco na terceira. A divisão poética é muito diferente da separação silábica convencional. No livro em questão, os poemas em haicais são apenas o pano de fundo para as histórias do Menino Maluquinho.

Os versos e as ilustrações são legais, podendo, em alguns momentos, trazer reflexão.
A obra está disponibilizada em e-book, sendo uma ótima oportunidade para quem quer começar a ler algo no meio virtual; é uma leitura rápida, fácil e curta. Leitura válida para pessoas, não importando a idade, que querem ter contato com uma leitura leve e divertida. É possível adquirir gratuitamente o livro no site da Amazon Brasil; basta se cadastrar e recebê-lo em seu e-reader, celular ou computador.

Ziraldo Alves Pinto nasceu no dia 24 de outubro de 1932 (hoje com 80 anos), em Caratinga, Minas Gerais (meu conterrâneo estadual). Começou sua carreira nos anos 1950 em jornais e revistas de expressão, como Jornal do Brasil, O Cruzeiro e Folha de Minas. Além de pintor, é cartazista, jornalista (meu colega de profissão), teatrólogo, chargista, caricaturista e escritor. Sua obra mais famosa é "O Menino Maluquinho" que surgiu em 1980, e gira em torno das maluquices de uma criança disposta a curtir até o último segundo de sua infância.

A leitura me lembrou, nostalgicamente, do filme que tanto gosto:
Nota 5.