sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Do Inferno ao céu das artes



Por Júlia Martins



Às vezes aparecem alguns livros que nos fazem querer tudo que o autor escreveu, não é? Este ano tive essa sensação com dois autores, Gabriel García Márquez e, mais recentemente, Alan Moore, após ler sua obra prima, Do Inferno.
Trecho de Do Inferno (Fonte: Submundo HQ)
Esse livro em quadrinhos conta a história mais conhecida sobre a possível identidade do Jack Estripador, assassino em série que cometeu crimes em Londres no final do século XIX. A verdade sobre esses assassinatos nunca foi descoberta, mas diversos livros lançaram a hipótese dos crimes serem uma queima de arquivo relacionada com a casa real inglesa.

Alan Moore realizou uma grande pesquisa com a bibliografia disponível sobre Jack e escreveu um romance cravado na realidade. A despeito disso, a maestria da obra está na extrapolação, em sua capacidade de ir além dos fatos e propor o caráter do assassino e dos demais envolvidos, suas predileções, loucuras, angústias e pensamentos.

De acordo com os relatos e descrições dos corpos encontrados, nada menos que uma mente muito perturbada poderia ser capaz de cometer tais atos, e é nesse ponto que vemos toda a capacidade criativa do escritor da nona arte. 

No final do livro tem todos os comentários que o autor escreveu para fundamentar sua criação, as bibliografias e documentos históricos que utilizou. Recomendo a leitura do livro e, à medida que tenha dúvidas, vá aos comentários para entender o motivo dos elementos presentes na história. Não sou muito fã daquele tipo de discurso que diz que você tem que ler isso, tem que fazer aquilo, mas Do Inferno é simplesmente imperdível.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O livro mais polêmico do ano não é assim tão polêmico



Por Júlia Martins


Fiquei um semestre sem adquirir livros, devido à altura da pilha de livros não lidos em minha casa. A meta era até o Dia dos Namorados, mas só voltei a comprar livros em julho, o que exigiu um grande esforço. E o primeiro livro que adquiri e li depois desse jejum foi Submissão, de Michel Houellebecq. Por quê? O tema de um país como a França, tendo um presidente mulçumano me pareceu um mote perfeito para um grande livro, bem ao estilo que me cativou para as leituras: as distopias.

Entretanto, me decepcionei um pouco. A narrativa se passa em 2022, portanto, não é um futuro tão distante e me pareceu que muitos dos argumentos utilizados para desenvolver a trama que culmina na eleição democrática de um líder que segue o Islã por um país cada vez mais laico precisariam de mais tempo para maturar na história. O tempo para que os grupos influentes e as mentalidades mudassem me pareceu pouco, mas afinal quem sou eu para dizer o que vai acontecer neste mundo cada vez mais veloz, não é?

Vamos a alguns pontos que achei duvidosos. Primeiro, existe um enfraquecimento dos dois maiores partidos do país, a esquerda e a direita moderadas. Isso facilmente se explica pelo desgaste dos atuais modelos de gestão, mas daí para de repente esses dois partidos serem batidos por um partido de extrema direita (à la Hitler) e outro muçulmano, já achei demais. Deveria ter um esforço de articulação política entre esses dois partidos tradicionais para que, ao menos, um chegasse ao segundo turno das eleições. Ou os próprios eleitores ou a imprensa deveriam alertar para esse fato e comprar essa batalha.

Segundo, onde estavam os grupos que seriam potencialmente prejudicados depois que o partido muçulmano ganhou as eleições? As mulheres, os judeus, os homossexuais? Como um país que leva milhões às ruas para protestar e que simplesmente inventou as greves pode não fazer nenhuma manifestação após as mudanças substanciais nos direitos das mulheres?

Por fim, como um livro que é vendido como o mais polêmico dos últimos tempos pode colocar um protagonista tão fácil quanto um homem branco, solitário, professor universitário e vulnerável no papel principal? OK, o rapaz é simpático e sua história se desenvolve bem, mas fiquei com a impressão de que tinha alguma coisa faltando. O livro é fácil de ler, bem escrito, mas não me convenceu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Divulgação da coletânea ETÉREO

"Até 31 de agosto de 2015, a Andross Editora estará recebendo contos fantásticos para publicação no livro ETÉREO”
 
A Andross Editora está recebendo contos de amor para publicação no livro "Etéreo - Contos fantásticos”, a ser lançado em novembro de 2015 no evento Livros em Pauta.

Qualquer pessoa pode participar. Basta acessar o site www.andross.com.br, ler o regulamento de participação e submeter seu texto à avaliação. As inscrições vão até 31 de agosto de 2015.


Todos os autores que forem aprovados para publicação nessa coletânea automaticamente concorrerão ao STRIX, prêmio criado e concedido pela Andross Editora aos autores cujos textos mais se destacarem em suas coletâneas. O processo de votação encontra-se no site da editora.

Prêmio STRIX

SINOPSE DO LIVRO:
Alquimistas de todas as épocas pesquisaram formas de compreender uma desconhecida energia superior, não-física e de extremo poder a que denominaram ÉTER. Segundo seus estudos, juntamente com fogo, ar, terra e água, ela seria o quinto elemento presente no universo. Por ser intangível, constituiria a energia que liga o homem ao sonho e o sonho à insolitude. Essa é a chave para a criação de histórias fantásticas que, de forma sublime, transforma o cinza cotidiano em um infinito etéreo: a fantasia.

 

SERVIÇO: 
Livro:Etéreo - Contos fantásticos” 
Organização: Alex Mir
Envio do texto: até 31/08/2015
Lançamento: 28 de novembro de 2015 (no evento Livros Em Pauta
Regulamento: no site www.andross.com.br 
Realização: Andross Editora






Abaixo, segue uma entrevista do editor da Andross sobre o processo de publicação. 
Vale a pena assistir.
  

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Um livro sobre todos nós



Por Júlia Martins
 
Li recentemente o livro As coisas, de Georges Perec. O autor, integrante do grupo literário surgido na França OuLiPo, é um escritor muito inventivo (e maluco): entre suas obras, há um livro utilizando apenas uma vogal e um livro descrevendo todo um fluxograma de possibilidades sobre como pedir um aumento ao seu chefe (esse último é hilário). 

Bem, apresentados a esse grande autor francês, vamos ao livro. As coisas narra a história de um jovem casal em Paris, no início da década de 1960 e sua relação com os bens materiais, seus desejos, suas frustações, o status relacionado às coisas e a felicidade aparente relacionada a esses itens. 

Não é um livro com grandes acontecimentos, já que grande parte do texto trata sobre as sensações, aspirações e ímpetos da dupla. Mas há um aprofundamento também na incoerência deles ao querer sempre os melhores mobiliários, roupas, comidas e bebidas, ao mesmo tempo em que não querem ter que ceder a uma vida um tanto quanto maçante, com um vínculo empregatício, o qual lhes dá o dinheiro, mas lhes toma o frescor, a flexibilidade e o ar “cool” de um casal que vive livre das amarras capitalistas. 

Se até esse ponto você ainda não achou nenhuma semelhança com alguém que você conheça, ou até você mesmo, já que é um livro basicamente sobre o consumismo, ainda tem mais: Perec descreve um fenômeno de supervalorização de vários itens, mas em particular o da gastronomia, apontando como com a inserção de ingredientes refinados e a ideia de que se está tendo uma experiência autêntica, um restaurante ou mercearia começam a vender pratos absurdamente caros. O resultado é que as pessoas pagam com gosto por acreditar que isso os defina como especiais ou superiores aos demais. Não seria isso a gourmetização? Há cinquenta anos?

Sinceramente, acho que todos que lerem esse livro vão pensar em alguém que conheçam, mas no final das contas terão que olhar para si mesmo e aceitar que se identificam também em vários pontos da narrativa. Lembrando que esse livro foi escrito na década de 1960, me veio à memória uma frase da música do Belchior que resume para mim essa experiência literária: “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

Apenas para reforçar esse livro é excepcional, uma das melhores leituras que fiz no ano e recomendo muito, juntamente com todos os demais livros do autor.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Velhos, novos, putas tristes e o amor



Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez, trata sobre a vida e sobre o amor, este podendo ser descoberto, e elevado a última potência, mesmo após os 90 anos. O protagonista é um jornalista e crítico das artes colombiano. Como presente de aniversário, ele decide se dar uma noite de amor louco com uma adolescente virgem de 14 anos. Tudo é preparado pela cafetina e velha conhecida Rosa Cabarcas, mas as coisas não saem exatamente como planejado. Ao invés disso, nasce uma paixão e, junto a ela, a descoberta do sentimento amoroso, negligenciado pelo protagonista por toda a sua existência (quase um século).

O livro contém a escrita fluida e leve do Gabo, com a intensidade capaz de nos tirar da zona de conforto. Pensamos na vida e no que ela é capaz de fazer conosco – ou o que somos capazes de fazer com ela. Deparamos-nos com uma reflexão sobre escolhas, amadurecimento e envelhecimento, deixando claro que nunca é tarde para descobrirmos os prazeres que acompanham a felicidade. Também nos deparamos com o poder do amor, o qual nenhum de nós está imune dos seus efeitos colaterais, incluindo atitudes impensadas e bobas.

A lucidez do protagonista é invejável. Sua capacidade intelectual, mesmo que desvalorizada, o mantém ativo mesmo após tanto tempo de trabalho. Sua vida sempre foi conturbada com relações sexuais com prostitutas sem amor, motivo que dá nome à obra. Descobrimos que antes da morte para tudo tem jeito ou possibilidade de mudança.

Mesmo com um tema delicado como a prostituição de menores o livro não pende para a problematização negativa. Os sublimes sentimentos põem essa questão em segundo plano. Nota 10.

terça-feira, 7 de julho de 2015

A obra-prima de Bolaño

Por Júlia Martins


2666 é um livro para poucos. Não conheço muita gente que se aventuraria em uma obra de 850 páginas (mas para mim é só o aquecimento, pois Graça infinita, com suas mais de 1.000 páginas, está na fila). E apesar dos anos de leitura, esse foi o calhamaço mais extenso que me lembro de ter lido.

Mas vamos tratar de qualidade e não de quantidade. Essa obra é dividida em cinco partes, todas elas conversam entre si, e a última dá o desfecho da história. Desfecho é uma palavra um pouco inadequada na verdade, pois o que mais se sente nesse livro são os elementos que ficam abertos.

A primeira parte narra a história de alguns críticos literários que estão em busca de um escritor misterioso, chamado Benno von Archimboldi, o qual estudam e admiram profundamente. São três homens e uma mulher e, além de sua ligação literária, há um envolvimento sentimental entre eles, com um desfecho inesperado. Os estudiosos partem em busca de do escritor no México, na cidade de Santa Teresa, onde conhecem o protagonista da segunda parte.

Na parte seguinte, conhecemos a história de um professor de literatura, chamado Amalfitano, que mora em Santa Teresa (cidade onde são protagonizados muitos acontecimentos da narrativa e que se torna, ela mesma, uma personagem) com sua filha única. Essa parte é a mais maluca de todas. Além de narrar um pouco do passado do professor, conta seus devaneios sobre um livro de matemática que acaba dependurado no varal em um clima bem onírico e misterioso.

A terceira parte é sobre um jornalista americano que vai a Santa Teresa para escrever uma reportagem sobre uma luta de boxe na cidade e acaba se vendo envolvido com pessoas e histórias de assassinato que ocorrem no local.

A parte seguinte é o soco no estômago do livro. Ela narra os assassinatos que ocorrem em Santa Teresa (ficcionalização da Ciudad de Juarez, onde existe realmente uma terrível história de feminicídio que persiste há mais de vinte anos aos olhos das autoridades do país). Principalmente para mim, que sou mulher, foi uma leitura penosa, dolorida, que tive que dividir em doses homeopáticas. Mesmo assim, acho que é o coração do livro, pois essa experiência literária nos leva a desenvolver sentimentos elevados ao extremo, sensações que nunca experimentei na vida cotidiana e também traz algumas histórias permeadas entre os assassinatos que nos auxiliam a ter algumas ideias sobre a motivação e o cerne dessa história de terror.

Roberto Bolaño (Foto: estrelaselvagem.wordpress.com)
Quando li o livro, não sabia que essas histórias realmente haviam acontecido e acho que vale a pena conhecer um pouco mais sobre Ciudad Juarez antes de ler 2666. Fiquei com a sensação que o Bolaño ia solucionar o caso, mas sabendo que nem na vida real esse triste panorama teve um desfecho, entendo que o objetivo dele era outro. 

A última parte do livro é a história de Archimboldi, o escritor venerado pelos críticos da primeira parte. Aqui, Bolaño mostra toda sua maestria em criar histórias dentro de histórias, e mudar completamente o tipo de narrativa que passa do realismo bruto dos assassinatos para um ambiente fantástico da infância de Archimboldi com sua mãe caolha e seu pai perneta. Após a infância cheia de elementos mágicos que dá alento à leitura, a narrativa traça o caminho de Benno durante a segunda guerra mundial até se casar com Ingeborg e se tornar escritor. 

A parte final costura as demais histórias, mas não sem deixar muitas perguntas por responder. Como podemos ler na orelha do livro, a sensação que o livro dá é que cada frase traz uma informação importante para o desfecho da história e nem tudo que se diz parece conectar com alguma coisa no final. Outro dia, um colega me disse que achava Allan Moore um grande escritor porque ele não subestima a inteligência do leitor e deixa um pouco das lacunas para serem desvendadas por ele. Acho que é exatamente isso que Bolaño busca em sua obra.

Acredito também que a sensação de uma história inacabada é o objetivo do autor, pois na vida real essa história nunca acabou; então a inquietude, o horror e o medo persistem. Terminei o livro pensando que tinha desperdiçado um mês de leituras com ele, porém, depois de refletir bastante sobre o tema, 2666 é uma obra inteligente e desafiadora, que merece a atenção de quem quer vivenciar algo inusitado, que nos tira do lugar comum.